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As estrela que dissemos que contaríamos juntos começaram a esfriar na noite de ontem. Não virou manchete quando derramaram nanquim no meu céu. Olhar pro infinito e não ver nada é cair em si. Deixar você partir foi como cair em mim, tropeçar nos meus próprios cadarços e nos meus próprios medos, beber do meu sangue enquanto tentava me esvaziar. Ontem, quando as estrelas esfriaram, tive pena dos cigarros imaginários que fumei esperando que a fumaça incendiasse aquela espécie de ponto final que mora lá em cima. Aquela espécie de limite que quase não posso ver, onde toda e qualquer pessoa com o mínimo de sanidade deseja conhecer quando se acabar. As estrelas que dissemos que contaríamos juntos, não vimos esfriar. Mas eu vi as cinzas se transformarem em uma nova galáxia, onde eu percebi que fui deixando qualquer pessoa entrar esperando que alguma delas fosse você. Eu já não lembro mais do seu rosto, do seu nome e das suas manias, mas as estrelas que contaríamos juntos, esquecemos de contar. Você, que eu não sei quem é, faz parte de mim mais do que todos os meus outros restos. Porque cada dor que eu sinto pode ser você… Então, eu deixo lá. Acumulada como uma estrela morta e sangrada. Todas as dores são lindas como eu lembro que você era. É difícil resistir. A morte de cada estrela é um pedido realizado… Estrelas cadentes e carentes, eu diria. Ontem, meu pedido foi pra ter o que amar. O que você acha que acontece quando as pessoas morrem? Quando os cometas caem? Quando as pessoas que dizem que nunca vão partir, partem? Toda pessoa partiu pelo menos uma vez na vida. Eu me parto ao meio todos os dias. Esquecer de contar as estrelas é uma forma de fazer com que elas vivam pra sempre. E você não imagina como é triste viver pra sempre. É provável que estrelas cadentes sejam estrelas suicidas. Mas minhas estrelas, que de tão minhas são tão suas, esfriaram e caíram, todas elas. Eu sinto muito. Sinto muito se esperei demais para terminar de contar as estrelas. Se fiz elas sofrerem esse tempo todo… Se fiz o céu um pouco mais apertado pra sua alma adolescente enforcada num drama qualquer. Eu deveria ter inventado um infinito e dito que estava tudo bem. Todas as lágrimas, e toda a solidão, todas as noites, todas as luas, todas as estrelas, devidamente contabilizadas. Cada estrela que não contamos conta um segredo meu pra imensidão. Cada estrela que morre sem um funeral é por culpa minha. E, de novo, você sabe o que acontece depois da morte? Você sabe o que acontece depois da morte de uma estrela? Talvez, se eu escolhesse me matar hoje, algum dos seus desejos se tornaria realidade. Talvez, aquele seu desejo de morrer. Porque você sabe que só existe em mim e em mais ninguém. Mas eu não vou me matar hoje. Nem nunca. Só quando eu terminar de contar todas as estrelas. E sim, seria incrível se virássemos mesmo estrelas quando morrêssemos. Você é uma das minhas estrelas, e sabe disso. O que eu tenho medo, porém, é de que você caía qualquer dia desses. Ontem, eu vi uma estrela fria e suicida. Se foi você, você que eu amo e não sei quem é, tudo bem. Eu termino de contar as estrelas sozinho. De novo.
— Cinzentos. (via garoto-de-terno)
Podem me tirar tudo que tenho, Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz Para quem eu amo
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